Folha :: Sob Lula, Brasil adota política de abstenção

No governo do presidente Lula, a abstenção foi a posição mais constante da diplomacia do Brasil nas votações na 3ª Comissão contra países acusados de violações dos direitos humanos

05 de dezembro de 2010

DO RIO

No governo do presidente Lula, a abstenção foi a posição mais constante da diplomacia do Brasil nas votações na 3ª Comissão contra países acusados de violações dos direitos humanos.

Houve um voto contra o Irã em 2003, paradoxalmente quando o reformista Mohammad Khatami presidia o país, e votos contra Uzbequistão e Turcomenistão em 2005, 2006 e 2007, após ondas repressivas nas duas ex-repúblicas soviéticas.

No governo de Fernando Henrique Cardoso, a diplomacia tendia a aderir às condenações, como nos casos do Iraque e de Kosovo. Mas se absteve de condenar Cuba em 1997 -numa resolução que teve mais abstenções do que votos "sim"- e o Irã em 2001 e 2002.

Mesmo com as restrições que tem feito à 3ª Comissão, no entanto, o Itamaraty votou contra a Coreia do Norte neste ano -como havia feito em 2007 e 2005.

O argumento, agora, é o de que os norte-coreanos não mostraram nem a mínima disposição de cooperar com a revisão periódica promovida no Conselho de Direitos Humanos.

Mas ONGs da área reclamam para si o mérito.

A Conectas, de São Paulo, chegou a acionar a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão para reverter a posição de abstenção em relação aos norte-coreanos no Conselho, na votação do ano passado.

A ONG reclama fidelidade à Constituição, que estabelece a "prevalência dos direitos humanos" entre os dez princípios que devem reger as relações exteriores.

"Nem a politização do sistema [ONU] nem a seletividade e nem a eventual duplicidade [de organismos] são justificativas palatáveis para quem tem que respeitar os direitos humanos acima de outras coisas", diz Lucia Nader, da Conectas.

Quando questionado sobre o caso do Irã, o chanceler Celso Amorim afirmou que o Brasil pode obter mais resultados mantendo aberto o diálogo com o país.

Segundo Amorim, esse tipo de conduta é mais importante para as vítimas de violações do que "pôr o diploma na parede e dizer que recebemos o aplauso de tal ou qual ONG".

Para Nader, no entanto, o Brasil falha em criar ônus para os violadores dos direitos humanos.

Ela aponta que o Itamaraty é tão seletivo quanto as potências que frequentemente critica. Cita os votos favoráveis às resoluções sobre os palestinos.

"O Brasil não se absteve para dar a Israel o que chama de "janela de oportunidade". Acho que esse voto está certo, mas isso demonstra seletividade", declara Nader. (CA)





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